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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

desvão
















cai bem no meio d’um desvão
e antes que soubesse de mim
os olhos nublaram sem brilho
um suor aflito molhou o corpo
neste novo momento iniciado




tuluca

São Paulo, 17 de dezembro de 2016
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terça-feira, 6 de setembro de 2016

menino a caminhar













 na vida tantos ventos.
as arvores tão altas.
eu e o menino caminhando
ele e eu a conversar.
tanto caminho de marcha
tanto pé de pau e bicho
tudo pra ver e por a mão.
a vida a viver.
muito descaminho e pedra
o vento a ventar.
de tudo se ria o menino
sua voz comigo ia
ele sempre a explicar.
o vento, muito ventando
em muitos caminhos, tantos.
vento levou o menino
que n’algum caminho está,
menino que me tem
sorrindo a me esperar.




tuluca

São Paulo, 5 de setembro de 2003
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Carlão



Carlão (Luiz Carlos Raso), quanta aventura e coisas de meninos fizemos juntos, tanto tempo...  Seu fusca verde, as risadas que riamos de coisa nenhuma, muita memória e tanta saudade que você vai deixar aqui.
Boa viagem.
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terça-feira, 7 de abril de 2015

A pedrinha de estrelas















Olhando mais suavemente pras violentas maldades do mundo, paro e não prossigo adiante, estaciono. Penso em mim, neste jeito um pouco tristonho de olhar para a vida. Sempre buscando maneiras de trazer entusiasmo e alegria pros meus dias e o dos outros.

Foi no tempo onde todos os dias guardam aventuras impares e novidades sem igual.
Aconteceu num daqueles dias cheios de muito sol e silêncio. Eu menino andava à-toa pelo areão na beira do corguinho marulhento, quando de repente acho na areia uma pedrinha branca e pequenina, que rebrilhava ao sol como se tivesse milhares de estrelas, tomei-a nas mãos e brinquei por muitas horas, intrigado com a beleza dela. Dentro d'água o brilho cessava. então eu esperava pacientemente ela secar só pra encantado vê-la brilhar novamente.
Estive assim perdido por um tempo de nem sei, mirando estrelas naquele pequeno universo só meu. Apenas eu soube dele e agora você, posso te dizer que foi um dia muito bom e ainda não acabou.
Uns cinquenta anos depois, eu estive numa cidade próxima desse lugar de muita infância, bateu uma saudade enorme daqueles dias, daquele Eu que de tudo se admirava sonhava e aprendia. Assestei o carro em direção ao córrego, à horta, o capinzal, enfim rumei pra um tempo que não existe mais. Dirigi alguns quilômetros, mas logo parei no acostamento pensando no que estava fazendo. Dei meia volta; não poderia ir pr’aqueles dias azuis de não ter fim. Aquele lugar não existe mais neste tempo, hoje ele habita o transcendente de quem sou, fica vivo na pedrinha que continha o firmamento. Ela como eu, existe apenas no que quero de mim mesmo, no doce descobrir das pedras ensolaradas de viver e amar.
Voltei dali, assim como volto a mim depois que a música termina; sempre sabendo que o que tive e sinto, estarão em mim enquanto eu tiver luz no coração. Depois que eu me for, alguém ainda sorrira com a criança do córrego ensolarado. Na arte mora a salvação pra toda dor e o vazio da existência, na arte o começo de tudo, toda a magia de sermos humanos e podermos ser mais que nós mesmos.
A triste alegria é a graça de saber-se humano. É o modo suave de fluir junto pela natureza, transformando o tempo em um período só, sem começo e sem fim, onde tudo vive e calmamente recomeça sempre.
Assim ensandecido escrevo estas palavras do meu Eu, este Eu que nada sabe e ainda experimenta molhar as pedrinhas pra fazer sorrir uma moça querida.

Ainda aí?




tuluca

São Paulo, 5 de abril de 2015
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[Sobre o que vive sempre e não existe, mas que sempre insiste e vivifica, apesar do tempo]

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Bolo de Fubá Mimoso











Antes houve um tempo de pensar receitas, guardei está pra usar algum dia ouvindo Pena Branca & Chavantinho cantando Cuitelinho


Bolo de Fubá Mimoso

1 xícara de açúcar
1 xícara de fubá mimoso, (de moinho de pedra)
2 copos de leite
2 ovos
3 xícaras de farinha de trigo
1 colher de fermento
1 pitada de sal
1 colher de manteiga

Junte todos os sólidos com afeto e misture com paciência. A amorosidade do açúcar vai se juntando a vida dos ovos, a maciez do fubá formará grumos com o alimento do trigo, coloque o fermento e espere um pouco, junte a manteiga que faz a liga e não esqueça da pitada de sal que é Sol.

Ah! não esqueça da alegria d’uns grãos de erva doce.

Leve ao forno suave, pois que pressa não faz carinho algum.


tuluca

São Paulo, 20 de maio de 2013
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mãos de irmãos






Quando menino eu e minha irmã ouvíamos histórias fantásticas ao lado de um fogão de lenha. Depois, com luz da lua, ou em noite escura voltávamos pelo pasto, de mãos dadas, morrendo de medo e em silêncio. lembrando das histórias e ouvindo, aqui e ali, um assobio que podia ser do demo ou do saci.
Tínhamos muito medo de atravessar o pasto úmido da noite. Hoje, é bom recordar da mão de minha irmã que confiava em mim.





tuluca

São Paulo, 28 de outubro de 2013
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domingo, 2 de junho de 2013

Filha Amanda

Por gostar da música “te recuerdo Amanda” de Victor Jara, dei o nome de Amanda a uma de minhas filhas, ela morreu nenê ainda. Foi o enterro mais triste que segui; estávamos apenas eu e o coveiro, o dia amanhecia úmido e havia uma névoa anunciando um dia muito quente.
Pelo que sei de mim, naquilo só estávamos eu e o infinito navegando naquela turva manhã, como caminhasse por um vácuo surdo.


tuluca

São Paulo, 2 de junho de 2013
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domingo, 12 de fevereiro de 2012

pra sempre

Eram muitas as palavras e os sorrisos. Aqui comigo ficaram somente as imagens, as palavras perdi-as no caminhar do tempo.
Uma pele alva, os olhos muito azuis, o cabelo anelado e curto, sorriam felizes também. Foi num súbito instante que o sorriso sumiu, a mão gira a torneira, enquanto aqueles olhos esperam a água sair pelo chuveiro. Olho-a atenta com as mãos espalmadas à espera do jato d’água, ele chega frio e faz graça aos olhos azuis, tão azuis... Foi nesse espaço da água se despencar que o tempo se eternizou e virou meu prisioneiro.
Esse átimo de viver ficou pregado nas paredes da minha memória, como fosse um só retrato, ou poema de um tempo infinito, sem principio e sem fim.





tuluca

São Paulo, 11 de fevereiro de 2012

(reescrito dum post do velho Extra Tempo - Segunda-feira, 15 Fevereiro de 2010)
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[só por saudade de um caminhar em ruas vazias num dia de muita luz]
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sábado, 21 de janeiro de 2012

aguinha do agrião


Pela tarde surda e morna, eu menino com chapéu de palha, camisa xadrez, short amarelo e o sujo borzeguim, seguia à-toa por entre as alamedas de café. Eu tinha o mundo todo e caminhava supondo histórias de outros tempos por aqueles chãos de macio pisar. Lembro que logo depois das goiabeiras vinha o flamboyant vermelho e a cerca da horta solitária, verdade é que não se via gente em canto algum, só mesmo os silêncios. Depois de passar o pequeno portão de taboas, o cheiro de terra úmida e planta perfumada enchia as narinas. Ah, como ali era bom!
Lá, bem no meio, num chão mais duro, havia uma aguinha fininha bem transparente que se podia beber, ela tinha um espraiado cercado de agrião verdinho, com suas florinhas e raízes brancas. Ali eu gostava de demorar... Com a ponta do dedo acariciava as folhas pequenas e arredondas, admirava os pequenos insetos voadores por um tempão. Bebia muita água e deitava com a barriga virada pro céu, braços abertos e sorrindo sem porque nenhum.
Naquela tarde eu existi pra sempre.
Hoje, se me deito olhando pro céu, ele ainda está tão distante e azul como naquele dia pleno, mas já não há mais silêncios a me rodear, ouço muitos ruídos do meu passado e a aguinha do agrião corre quieta pelo canto dos meus olhos.




tuluca

São Paulo, 21 de janeiro de 2012
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[Brinquei com o pretérito dos verbos, pois que esse dia foram muitos e boiam na memória]
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A esmola e o medo


Comprei por um real esta caneta, e só a comprei porque a achei baratinha...

Agora, aqui neste vagão de metrô, escrevo sobre este menino que aqui pede esmolas. Pede, mas as pessoas negam, afinal é o que diz a voz metálica pelos alto-falantes:- Não dê esmolas ou compre de ambulantes. Neguei também, mas me arrependi, olhando bem a figura deste menino de pés descalços, uma calça pequena para ele e uma malha de lã preta e desfiada. No vagão cheio os passageiros riem à toa e não o vêm. Hoje faz frio...

Existe dor e medo estampados neste semblante criança, de um olho vazado e cara suja. Ele está só, ele é só. Tem fome, frio, que só ele mesmo conhece. Não sorriu com a moeda ganha, ele tem medo e uma questão: - Porque só para mim é assim?




tuluca

São Paulo, 13 de novembro de 2006
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Tânia


abriu-se um oco no ruído da cidade
nosso passeio a passear, saudade
tantos pequenos doces momentos
o céu de nuvens e as mesmas flores
amor, amor de soprada leveza
e este caminho tão longo, até aí



tuluca

São Paulo, 15 de novembro de 2011
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ao dia incrível


Era uma sala muito clara iluminada pelas lâmpadas néon, os azulejos de um verde claro cobriam as paredes até o teto. Lá a enfermeira chefe me levou até um nicho na parede e começou a desatar a bandagem que embrulhava o menino. Eu não sabia o que esperar, então ela começou dizendo: –Veja, ele é perfeito! E enquanto falava mostrava-me as partes do corpo. – Ele é bem formado! dizia ela enquanto me mostrava os dedos das mãos e dos pés. Mostrou-me as orelhas, articulações e com a ponta dos dedos tocou o pênis dizendo: –É homem. Depois dum silêncio disse vagamente: –Bom, ele é perfeito e bonito. A isso eu retruquei: –Só o que falta à ele é vida... E por não saber o que fazer naquele momento, deitei minha testa no ombro daquela mulher tão técnica e capaz.

Depois, nos jardins daquele hospital, quedei-me pensativo. Porque ele não vive se é perfeito? Porque a vida não grudou nele? Porque?

Ainda trago comigo essas indagações, já tanto tempo passado. Do que descobri desde esse dia incrível, é que a vida é mais que perfeição mecânica. Que Vida depende d’uma energia vivificante que una todos os átomos e traga junto consigo o espírito, para habitar o corpo até a exaustão do corpo mecânico.

Este é um sopro de amor, ao pedaço de mim que não esqueço. beijo




tuluca

São Paulo, 22 de setembro de 2011
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Retorno à fazenda das tantas borboletas...



Muitas tardes compridas e quentes de céu azulíssimo. Para adiante da porteira a estrada de chão batido, pela esquerda o arrozal à direita o cafezal; atrás o pasto com cheiro de bosta e grama. Aquele azul tão sem fim e as muitas horas intermináveis. Ficava eu acocorado sobre o mourão dessa porteira, olhando pro futuro que eu não via, imaginando outras horas, mais lugares. Lembro bem, que o que mais havia ali, eram as horas, infindáveis horas no céu tão azul. Na verdade, um azul de nunca mais.

Assim é que voltei. Parado no passado de muitas horas, pensando além do agora, calculando o presente.
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reeditado de novembro de 2009

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

já conversado


•as qualidades que temos vão pesando pelo caminho que seguimos, e irão ser cobradas de você muitas vezes...


• então vou te contar da última página do livro Quarup do Antonio Calado
• o Fernando personagem principal, padre, depois sertanista e guerrilheiro, gosta desde sempre da Francisca restauradora de arte
• na última e lindíssima página: Fernando deixando para trás a Francisca, e olhando pras patas do seu cavalo em marcha, ele descobre...
• que Francisca é só o centro de francisca, pois francisca é o mundo inteiro.
• penso, que amar muito é assim
• o mundo inteiro é quem se ama, mesmo que estejamos nalgum momento a amar outra pessoa.
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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Existe onde vou lembrando


Vem dum espaço distante e hoje só existe onde vou lembrando.
Era um sol ainda quente já despencando pra trás do morro. Os cheiros todos juntos: de bosta de vaca e cavalo, fogão de lenha, flor de café e mato pisado preenchiam minhas narinas, e eu nem bem os percebia. Veio a luz elétrica e os rádios encheram aquela tarde de sons, que se uniram aos animais e o marulhoso corguinho. Não ouvi aquelas músicas, mas fiquei com os sons, os cheiros e as imagens dessa perene tarde, a correr pelo pasto, subindo em árvore, sentado no moirão da porteira, brincando nos bambuais. Foram tantas dessas tardes tão iguais, do mesmo céu muito azul e ruídos de roça, que hoje ela é uma tarde só nos meus nove anos.



tuluca

São Paulo, 21 de julho de 2010

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